Meu antigo lar 

São cinco da manhã. Faz exatos seis horas que parti de sua casa. Que sai de seu quarto. Aquele lugar que por meses, mesmo que poucos, foi meu refúgio. Meu lar. Você era meu lar. Mas mesmo agora, seis horas após você me contar a verdade, a minha ficha ainda não caiu. Será que ela vai demorar a cair? Eu espero que não. Não quero demorar a seguir em frente, mesmo não querendo seguir. Não quero procurar outro lar, porque você era o meu. Estou olhando a lua neste momento. Quero dizer, estou tentando pelo menos, o céu está escuro e ela está se escondendo atrás das nuvens. Paro e percebo: não foi exatamente o que você fez durante esses nossos meses em que você foi meu lar? Você também foi o lar dela… Mas enquanto eu estava no seu quarto, você a escondia no porão. E quando eu saia, com a promessa de que no final do dia voltaria para você, você a libertava e a deixava vagar pelo resto da casa. Enquanto eu tinha o seu quarto, a sua cama… Ela tinha o resto dos cômodos, o resto de você. Tinha sua comida, seu shampoo que deixa o seu cabelo com o cheirinho mais gostoso que já senti! Ela tinha você todo! Eu só tinha um pedacinho… Eu achava que tinha tudo, mas agora que revejo a situação, eu tinha… Nada. É, não demorou muito desta vez, agora ao som do mais leve orvalho, com a sensação da mais leve brisa, ao ser observada pela lua que finalmente resolveu aparecer, a minha ficha caiu. E está doendo. Deus, é uma dor agonizante, não consigo respirar, parece que o oxigênio entrou no meu pulmão mas se esqueceu do caminho de volta, não consigo mesmo respirar, minha cabeça está zunindo, consigo dar uma rápida olhada no relógio e me dou conta de que já se passaram três minutos e mal consigo ofegar, pequenos pontinhos pretos começam a dançar à minha frente, caio sentada no chão. A dor da queda me faz voltar ao normal, se é que agora, depois dele, conseguirei me sentir normal de novo algum dia. Começo a me acalmar e logo consigo guiar o oxigênio pela entrada e saída das minhas narinas. Não tinha percebido, não, eu não tinha sentido até agora. Meu rosto está molhado, será que a pequena garoa conseguiu fazer uma goteira no meu teto? Olho para cima. Tudo certo. Na verdade, estou chorando. Depois de seis horas – olhei de novo para o relógio, fiquei tanto tempo tentando ficar em companhia da lua que não percebi o tempo passar. São sete da manhã agora- finalmente consegui chorar. Isso foi recorde para mim. Eu sempre fui tão… Acho que a palavra certa seria chorona, mas gosto de dizer que sou sensível. Você dizia achar graça do fato como qualquer coisinha me afetava e me deixava mal tão rápido; dizia que nunca entenderia isso, chorar por qualquer coisa. Você dizia que o choro só era válido em funerais. Bom, você me matou.  Então acho que podemos considerar isso um funeral, certo? Ainda vai ser um funeral quando eu me reerguer? Porque alguma hora terei de fazer isso. Mas não agora. Agora quero curtir minha vida pós morte. Parece que invertemos os papéis ontem à noite, percebeu? Eu nunca vi você desmoronar nesses dois anos que achei conhecer você. Nem uma lágrima sequer, mesmo quando sua gata morreu. E você amava aquela gata, acho que a mais do que a mim. Porque, ora, você me amou. Não amou? Não é possível que tudo que vivemos, com tanta intensidade, não ser amor. Não ter sido amor. Só que foi um tipo de amor diferente. Você é a minha melhor amiga, eu te amo muito, daria a minha vida por você, mas ela é o amor da minha vida. Por favor, me perdoe. Essas foram as suas exatas palavras ontem. Elas agora ficam rondando minha cabeça, entrando e saindo pelos meus ouvidos sem parar. Parece que tem um disco arranhado na minha mente que por estar quebrado, não para de repetir. Parece meu coração. Está quebrado e não para de repetir a mesma pergunta: Você sabia que ia dar nisso, por que continuou? Por quê, Amanda? Por quê?
Você ensaiou aquelas palavras? Ou imaginou que eu nunca iria descobrir? Aquela enxurrada de emoções suas eram verdadeiras? Claro, claro que eram. Você me ama. Só não do jeito que eu amo você. Você disse que daria a sua vida pela minha, mas, meu Deus, tudo que eu queria era passar o resto da minha com você! Teoricamente, você não me traiu, eu sei, mas é como estou me sentindo nesse momento. Quando você pretendia me contar? Você ia me contar? Como foi que você escreveu naquele sms mesmo? “Eu ainda te amo, mas você me traiu, talvez, com o tempo, eu posso amá-la… Ela me ama, então talvez eu possa fazer ser recíproco… Mas, minha querida, se ela não conseguir, eu juro, pela minha vida, que volto para você! Me espera…”
Acho meio bizarro como consigo lembrar de cada palavra do que escreveu nesse sms que sequer era para mim. Mas filmes de terror também são bizarros e isso não diminui meu amor por eles, então, o que importa, não é?
Eu olhei bem no fundo dos seus olhos, olhos tão lindos… Sempre amei me afundar neles. Só não achei que pudesse me afogar.
Então eu vi. Você estava perdido. Não fora sua intenção me magoar, você disse. Eu fiquei tão sem reação quando vi o sms que a única coisa na qual eu estava concentrada era lembrar de respirar. E que essa respiração precisava ser constante. Não prestei atenção no que você dizia. Mas agora eu entendo. Entendo que você não sabia por qual caminho seguir e que ela era sua estrela guia. Infelizmente ela é de outro alguém também… Então me perdoe! Não posso ser a sua agora. Não depois de você ter me dilacerado. Preciso me recompor e seguir o meu caminho. Sinceramente, espero que você se faça a sua rosa dos ventos e, ao invés de seguir o sul em busca dela novamente, encontre um novo norte e seja feliz. E se não der certo no norte, tente o leste ou oeste, está bem? Apenas ache o seu caminho. E lembre-se: não esqueça de respirar.

P.s. essa história foi baseada num recente episódio amoroso de um grande amigo para mostrá-lo que mesmo na dor, é possível fazer o belo.