Barquinho de Papel, Parte 2 (final)

Parte 1.

“Antes de eu me perder nessa imensidão, eu vivia fazendo barquinhos de papéis no meu cais. Ele não ficava perto da minha casa, então todos os dias eu precisava andar quilômetros para chegar até ele. Mas eu não me importava, pois lá era o meu porto seguro. Com o tempo, aquele se tornara meu lugar predileto e passei a ficar cada vez mais tempo lá. Até que, um dia, eu resolvi morar lá de uma vez. Era muito cansativo e desgastante viajar todos os dias para lá, sabe? Meu cais fora construído com madeira da melhor qualidade, porém, sua estrutura não era muito forte. Mas era firme. E era meu. Eu amava aquele lugar de todo o meu coração e cuidava para que ele não ruísse devido ao constante contato com a água. E era recíproco, já que ele também cuidava de mim. Aquele cais era especial. Não pense que eu sou maluca, tá bom? Mas ele ganhava vida e conversava comigo. E com o tempo fui me apaixonando por ele, acredita? Ele me contou que já fora um garoto humano mas por ter irritado o Deus Poseidon fora transformado em um simples cais para a eternidade. Podendo voltar a ser humano somente quando encontrasse o verdadeiro amor e vencesse seu orgulho desculpando-se com Poseidon. Bom, nós tínhamos dias extremamente felizes. Fazia um sol muito gostoso quando estávamos bem. Mas nem sempre era sol. Ele tinha o dom de me irritar, sabe? E por causa disso brigávamos. Nesses dias caia uma garoa e fazia frio, porque ele não deixava eu fazer uma fogueira para me aquecer. Ele se tornava egoísta quando estava chateado. Sempre que algum garoto passava pela praia e eu era educada acenando para ele, meu cais ficava com ciúme e brigava comigo. Eu não entendia o porquê disso, afinal, eu era dele e ele era meu. Eu largara tudo para ficar com ele. Nesses dias, tínhamos fortes tempestades. Então eu sentava bem na beirada e fazia barquinhos de papel para colocar na água e assistir eles sendo levados pela maré. Eu gostava de pensar que estava mandando os sentimentos ruins embora naqueles barquinhos. Ele odiava quando eu fazia isso porque era perigoso e eu poderia me afogar. Então com os pregos enferrujados que eram alojados na sua madeira, ele dava um jeito de fazer com que prendessem a minha roupa para eu não cair. Quando ele fazia isso eu percebia o quanto me amava. Mesmo eu deixando-o bravo. Nessas horas eu via o quanto valhera a pena largar tudo e em como eu queria ficar ali para o resto da minha vida. Então chegou o dia dele confrontar Poseidon e pedir-lhe desculpas. Mas o Deus não achava justo que ele, um simples cais, conseguisse ter encontrado o amor da sua vida. Então o Deus deu-nos um ano para provarmos o quanto realmente nos amavamos.  Eu aceitei de bom grado, enquanto ele não gostara nem um pouco. Com o tempo, o cais se tornara estranho comigo. Ele mal conversava e se tornara distante. Aquilo me deixou tão triste… Não custava esperar mais um quando teríamos toda uma vida juntos. Um dia resolvi dar um basta naquele dor que ele estava me causando e fui conversar com ele. E Sabe o que ele disse?”
Nessa hora ela ergueu aqueles olhos castanhos na minha direção e olhou no fundo da minha alma. Ela estava com o coração em frangalhos e eu não a culpava. Que mal tinha em esperar um pouco mais? Encarei-a com compaixão dando forças para ela continuar.
“Ele disse que não me queria mais. Mandou-me embora. Que não acreditava mais em nós. Que aquilo fora uma total perda de tempo pois sabia que o Deus jamais o faria humano novamente e que eu merecia alguém melhor. Alguém que realmente fosse alguém. Na hora eu não consegui fazer nada além de fita-lo incrédula. Depois de todos os nossos momentos, ele me jogara fora. Dei-lhe meu coração mas não fora o suficiente para ele. Me tornei um peso em sua pacata e conformada vida. Porque segundo suas palavras, eu mudara tudo. Eu tentei argumentar e mostrar o quão errado ele estava mas ele sequer me  ouviu. Poseidon passava perto na hora e vira tudo. Percebera a tempo o que o meu cais iria fazer e fez com que um dos meus barquinhos ficasse grande e seguro para quando o meu cais me lançasse para o mar. Fiquei tão aflita na hora que nem vi quando cai. Eu não senti a queda. Estava doendo, eu estava machucada. Não por causa da queda, mas por causa dele. Eu estava sofrendo por causa dele. Meu cais, meu porto seguro, meu amor.
-Olho para o homem que ouvia atentamente a minha história e dou um sorriso triste.
Está vendo toda essa água? Mesmo com essa imensidão, não consegui lavar meu sofrimento. Porque eu também tenho uma imensidão dentro de mim. E enquanto a água tem uma enorme concentração de salinidade, a minha imensidão tem concentração de mágoa na mesma proporção. Eu estou cansada de velejar sozinha. Quero e preciso encontrar um novo cais. Um que suporte o meu peso, principalmente. Agora que contei você pode me ajudar? Por favor…”
Não consegui não ajudá-la. Resgatei-a daquele barco e a trouxe comigo. Ela ainda não encontrou um novo cais, mas encontrou um novo amigo. Agora ela não está mais sozinha, ela tem a mim. Também parou de procurar por um novo porto seguro, porque ela percebeu que quando for a hora certa, ele irá aparecer.  E após tudo isso, descobri seu nome e sua idade. Ela se chama Sophie, e só tinha 15 anos quando fora abandonada pela primeira vez…

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