A língua portuguesa tem mais de 400 mil palavras, mas vasculhei por horas e não achei um vocábulo sequer que expressasse a importância que você e sua amizade têm na minha vida. Lembrei então das aulas de linguística e que há certas coisas na língua que não possuem nome no momento de traduzir justamente por não haver necessidade de nomeá-las. O que nós temos está incluso nesse panorama. Nada disso é hiperbólico e você vai saber que estou sendo sincera se lembrar daquele dia em que fomos no Nova América depois da aula de Morfologia. Queria terminar com alguma rima bonita, mas desisti porque nada seria bom o bastante pra você. Então apenas fico com o velho clichê: Eu Amo Você
– para aquela que está sempre comigo

Queria escrever sobre nós…
– mas sei que não é em mim que você pensa

Perdoe-me se as próximas sentenças soarem poéticas demais. Estou me permitindo não ser racional dessa vez e dando voz à poeta que há em mim – (in)felizmente Pessoa generalizou equivocadamente, nem todo poeta é fingidor: mas confesso, quisera eu ser agora, amor.
– trecho da minha carta de despedida a você

Decidi não fazer rimas dessa vez. Confesso que não sei bem sobre o que será esse escrito. Me recuso a chamar de poema. Não tem nem terá forma de um. É apenas mais um texto dentre tantos já existentes. Dentre tantos e tantos no mundo, você. Só de pensar em você eu já estou aqui, chorando. Era só pra você ser mais um, mas não. Cê bagunçou tudo aqui, lugar que me esforcei tanto pra deixar limpo depois que eu expulsara o caos. Achei que você era só mais um. Mas cê simplesmente alterou minha estatística e quis, inconscientemente na minha consciência, ser O Ser. Achei que cê era calmaria. Mas a verdade é que você também é caos. Não como o de outrora. Não. Eu jamais o igualaria a tamanha vergonha. Mas cê me tira da minha zona de conforto. E me enlaça nos seus braços, pura paz. Sei nem mais do que sou capaz. Te quero por trás. Ó lá a rima, vem por cima? De lado, de quatro. Atrás dos auditórios. No último andar do CLA vendo a chuva cair e o tempo passar.

– anseio por você tanto quanto anseio por poesia

sinto que você me quebrará em mil pedaços e sequer se importará

Mesmo sem tocar minha pele

Você aumenta minha temperatura de uma forma

Que eu sinto como se estivesse no centro de Caxias

Às 15h da tarde de uma sexta qualquer

E a verdade é que eu não curto muito clichês

Mas

Você (in)felizmente é o meu

“Nunca senti isso por alguém”

Nunca senti tanta vontade de beijar alguém

Como por você

De abraçar alguém

Como por você

De ouvir sobre as amenidades do cotidiano de alguém

Como por você

De foder com alguém

Como por você

E, além disso, (in)felizmente

Do tal “fazer amor”

Como por você

Você

Você

Você

Fora de mim e

Dentro de mim e

Fora e dentro

Fora…

Não da minha mente

Nem do meu coração

Mas do meu corpo

– quero mais que apenas simples madrugadas, amor

Bastou a gente foder e eu vi: tava fodida

Você não me beijou

Nem me tocou

Sequer me avistou

Mas eu já sabia

Já sentia

Estava fodida

Mal saía de uma ferida

E novamente caía

Você apareceu

Me acendeu

Reacendeu

Preencheu

O que eu nem sabia

Estar vazio

Não quero mais rimar

Amar?

Aula de fonologia

Uma sábia sabiá

Já sabia

Me incumbia

De desejo por você

Um querer absurdo

De você

Me diz, amor

O que fazer?

– quando só o prazer já não é mais o suficiente

Assim como minha vontade por você, esses versos não possuem fim

Vem comigo mergulhar madrugada adentro na nossa imensidão

Vamos transar até o amanhecer ao som de Baco só para que ele mascare a verdadeira música que irá preencher o ambiente [enquanto você preenche minha carne]

Goza comigo enquanto o sol se põe a levantar mais um dia [enquanto eu me ponho de quatro pra você e te levo ao céu]

Suspira baixinho no meu ouvido enquanto mordo tua orelha pra não gritar pro sol o quanto você me satisfaz [e, mesmo assim, continuo insaciável por ti]

– eu te quero para sempre. meu para sempre é o agora.

Me despeço, aqui, de você

Queria que isso fosse verdade, amor. Queria, com todas as minhas forças, que fosse. Mas não é. Porque eu não consigo, porque eu não quero.

Sabe, uma vez eu li o quão absurdo é ver que nossa geração prefere amar e nunca ser amado – mesmo que isso machuque – a nunca amar. Tudo isso porque sentir seria melhor que o intenso vazio do nada.

Mas eu queria, amor. Queria, nesse momento, sentir esse abismo no peito. Porque pelo menos não haveria dor. Nem amor. Não me importo com o amor.

Não me importo com o amor

Não me…

Importo com o amor.

Será que repetindo isso consigo cravar no meu corpo essa memória e fazer dessa falsa afirmação um sintagma verdadeiro no meu ser?

Não sei. Não sei o que sinto. Não gosto de não saber o que fazer.

Quero apenas…

Esquecer você

Não

Cê percebeu que nesse pus título? É, que engraçado. Um título para que existíssemos nós sem nó num mesmo universo e agora novamente um para que eu parta de você para não me partir mesmo já estando pela metade e mesmo sem que exista, de fato, um nós.

– um lance é só um lance, lembra?

Narração

Walter Benjamin, ao se referir à questão da narrativa, menciona que quanto mais o ouvinte mergulha no esquecimento ao estar em face de uma história, mais ele incorpora o que é ouvido.

E

Eu sei. Eu sei, amor. Esse primeiro parágrafo mais parece uma introdução qualquer a algum trabalho de faculdade que o início de um poema.

Mas

Poema? Isso? Não sei, não sei. Tenho vivido vários não sei, lembra? Não? Tudo bem, tudo bem. Te explico outra hora – ou não. A questão é que sinto algo parecido em relação a você.

Será?…

Olha só, já estraguei a métrica dos entreversos destoando o futuro das conjunções. Não consigo escrever direito nunca.

E

Eu sei, eu sei, amor. Cê não está entendendo nada aqui e tudo bem, tudo bem. Acho que nem eu estava – mas a que me refiro exatamente, Atenas? Comecei a entender faz pouco tempo. Mas cê não vê. Ele também não via (só fingia, quiçá até queria uma orgia e mentia que não). Cês nunca veem.

Nunca veem.

Nem eu me via, amor.

Sabe, quando eu o expulsei da minha vida, ainda não o tinha expulsado do meu ser.

Demorou apenas um pouco dessa vez. Alguns dias. Não foi tão difícil. Hoje, olhando para trás, consigo ver que não fora difícil.

Hoje, olhando para trás, vejo que não era amor. Talvez tenha sido em alguma momento, mas apenas ligeiramente. Não sei. Não sei identificar o amor romântico.

E eu escrevia e escrevia e escrevia para ele. Quase toda semana. Quase todos os dias. Ele passava os olhos, ficava feliz, mas, hoje vejo que ele não me lia. Não me via. Ou via e eu que não o enxergava? Não sei. Ultimamente tenho vivido vários e vários não sei.

Não sei se o amei

E

Não sei o que sinto por você.

Só sei que é diferente de outrora.

É mais leve mas ainda não está estabilizado nem plenitulizado e sei lá se essa palavra existe. Na Letras aprendemos que, se o falante pronuncia e entende determinada forma, então aquilo é passível de se ter na língua.

E só o que eu sei é que eu quero ter tua língua na minha.

É estranho e bizarro porque fiquei presa emocionalmente por anos a alguém que eu achava amar, mas nunca senti tanta vontade por ele quanto sinto por você.

Nunca senti tanta vontade de sentar nele quanto sinto de sentar em você. De sentar com você. Te ouvir animado sobre algum texto que leu na faculdade. Te ouvir cantando no meu ouvido aleatoriamente enquanto me abraça e me carinha.

E eu não me sinto presa a você. Não, o que eu sinto é ligação. Me sinto conectada e quero cada vez mais me aprofundar nisso. Em você. Não sei se é recíproco e tenho medo de perguntar.

Tanto medo que não sei como continuar. Esse texto. Esses sentimentos.

Me diz o que eu faço, amor. Me diz se me quer tanto quanto eu quero você ou se tudo que pode me dar são fodas às 02h da manhã num motel qualquer perto do metrô.

Sei lá, isso me parece retrô, mas não quero regredir. Com você. Não. Quero voltar atrás no “um lance é só um lance” e ir pra frente de mãos dadas com você por Botafogo. Pela Cidade Universitária. Pela sua casa.

Me faz sua casa, amor? Mas não uma de temporada, não aquela que você só aluga pras férias de verão. Olha: nos conhecemos no verão e cá ainda estamos nós no inverno.

E

Alterno no alto externo do meu ser o intenso escrever sobre você.

Me vê.

Me vê, amor.

Me vê.

– textos que provavelmente você nunca lerá